Ao ler a descrição, fiel descrição, da corajosa e destemida subida à
montanha dos jovens desbravadores, Augusto, Benedito, Hélio e Tainá, até
o cume da Serra da Penanduba, fiquei impelido a reconstruir algumas
imagens-sentimento de um passado já distante sobre as onças-pretas,
macacos-guaribas, raposas, veados, cobras cascavéis, cobras jiboias
(cobra-de-veado) e gatos-maracajás (jaguatirica), que eram os
componentes da fauna desta formação montanhosa chamada de Penanduba,
localizada próximo a Araquém, distrito pertencente ao município de
Coreaú, no Estado do Ceará. Era e é uma área praticamente desabitada
pelo homem, mas contumazes ações e explorações deletérias do próprio
homem contribuíram para que seu rico ecossistema fosse praticamente
dizimado.
Coreaú, na primeira metade dos anos cinquenta do Século XX, era provida
de poucos arruamentos desprovidos de calçamento. A iluminação pública só
funcionava no horário das 18 às 22 horas, período em que os habitantes
adultos sentavam-se em cadeiras nas calçadas em rodas de papos – Jornal
da Noite – referentes ao cotidiano da população, enquanto as crianças
brincavam de contar e ouvir estórias, esconde-esconde, pernas de pau,
jogo da macaca, e os mais taludos flertavam com as meninas que jogavam
pedra, brincavam de roda, de prenda e de anel com os meninos. O anel, ao
ser colocado escondido nas mãos de um dos participantes, era motivo de
fantasiosas sensações durante o roçar das mãos das meninas com as dos
meninos, daí surgiam muitos namoros e casamentos.
Muitas estórias estão presentes no imaginário dos coreauenses presentes e
de antanho, algumas associadas aos mistérios da Serra da Penanduba e
manifestadas nas estórias de trancoso, e muitas incorporadas ao domínio
público por decorrência de contos e causos criados por caçadores e
figuras populares tipo Chagas da Onça, pacato conterrâneo que além de
muito trabalhador e ligado à ambiência campesina, era exímio contador de
causos e histórias com mirabolantes versões tipo ter visto uma formiga
gigante nos altos de uma carnaubeira a se alimentar do seu fruto. Nos
anos cinquenta era comum ver esticados para curtição solar, nas calçadas
de Coreaú, couros de jiboias, veados e gatos-maracajás (jaguatirica),
resultantes da caça predatória, que, depois de secos e curtidos, eram
vendidos aos comerciantes de Sobral e, a partir daí, seguiam em demanda
para Fortaleza, São Paulo e exterior e transformados em sapatos, roupas e
disputados acessórios de uso masculino e feminino.
Àquela época, o nível de consciência ecológica da população era quase
inexistente, o que contribuiu para a dilapidação do ecossistema, o que
ainda continua até hoje, talvez de forma menos intensa. Em todo caso,
aquilo, na minha meninice, causava-me mal estar em ver os “frutos” da
matança dos animais. Em consonância, um temor era gerado pelas fantasias
descritas pelos caçadores que iam desde a existência de caiporas e
coisas do “outro mundo”, até ferozes onças-pretas, talvez uma forma de
compensação para a dor de consciência e suporte de justificativa
daqueles que provocavam a trágica matança e agressão à natureza.
Os ipês ou paus-brancos, além de outros espécimes vegetais, foram
praticamente dizimados e não replantados. Nada restou, a não ser a bela
montanha que divisa com a Frecheirinha, bela e azul ao longe, mesmo
desmatada, mas árida e quase desértica na visão próxima de sua área
territorial, situada bem no epicentro do semiárido do sertão onde se
encrava Coreaú e municípios circunvizinhos. As fontes d’água gostaria
que ainda persistissem, estas são minhas esperanças e quem sabe possa
ressurgir um projeto ou programa de revitalização do ecossistema com a
necessária e educativa proteção ambiental, de todo o espaço da serra e
que, por decorrência, poderia se adequar ao ecoturismo de trilhas, ideia
já sinalizada pelos desbravadores citados, pois imagino que no seu cume
ainda resta algo da bela natureza, além de uma temperatura mais amena
que deve se reduzir em pelo menos 3.º C entre a máxima e a mínima da
região, pois pertinente ao clima de montanha.
Galba Gomes
Membro da APL
Fonte: APL
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